Dois meninos correm de patinete falando sobre Star Wars. Uma menina muito concentrada desenha seres fantásticos, ignorando a discussão ao lado sobre quem havia riscado ou não a mesa. Três meninas criam arapucas para capturar o saci. Dois meninos deitados no chão montam uma fábrica de robôs com pequenas peças de encaixe. Dois meninos observam no muro larvas de joaninha. Um menino e uma menina, sentados dentro de uma caixa, compartilham a leitura de um livro. Uma professora molha a areia seca buscando amenizar a temperatura de uma tarde quente de São Paulo.
Este livro, fruto da pesquisa de doutoramento intitulada Processos de criação e leitura de livros de imagem: interlocuções entre artistas e crianças, defendida em 2016 no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Unicamp, sob orientação da Profa. Dra. Lucia Reily, retrata uma pesquisa acadêmica pouco convencional.
Foi pensado e construído tendo como paisagem sonora o som de crianças em suas diferentes atividades: brincando, falando alto, chorando, conversando, lendo, correndo, rindo, brigando, cochichando… Se, na maioria das vezes, o trabalho acadêmico tem como características o isolamento e o silêncio, este se difere pois esteve repleto de crianças em todas as etapas.
Crianças-sujeitos da pesquisa nas interlocuções das narrativas, crianças das leituras nas bibliotecas e espaços visitados, crianças com as quais convivia como professora de educação infantil, crianças da minha casa, que tornaram este trabalho possível na medida em que apresentaram os modos de se relacionar com os livros e de perceber as imagens em sua potência narrativa, dando os indícios de quais caminhos elas seguem na leitura.
Para compreender esse estudo e os motivos pelos quais ele foi desenvolvido são necessárias, de antemão, algumas palavras para situá-lo e elucidar o lugar de onde falo enquanto pesquisadora.
Sou pedagoga formada pela Faculdade de Educação da Unicamp e sempre estive muito interessada nas produções culturais destinadas à infância. Minha preocupação está sobretudo voltada aos produtos culturais criados e oferecidos para as crianças e suas relações intencionais de formação, do ponto de vista estético e educativo.
Minhas inquietações levaram-me a pesquisar, ainda na graduação, os modos de relação das crianças com as imagens dos livros de literatura infantil. Desta experiência derivou-se uma pesquisa de mestrado em artes sobre as memórias do processo de criação de três artistas que produzem narrativas visuais: Angela Lago, André Neves e Graça Lima.
No mestrado, o objetivo era compreender os modos de criação dos livros de imagem e a intencionalidade destes artistas enquanto adultos que produzem para leitores em formação. Neste ínterim, surgiu o disparador desta pesquisa de doutoramento: os artistas falaram nas entrevistas sobre a criação solitária e indicaram que muitas vezes somente após a publicação das obras é que eles obtinham respostas das crianças sobre as narrativas.
Minha experiência como professora de crianças, por outro lado, me mostrava que algumas imagens eram incompreensíveis para elas. Muitas vezes, não conseguiam interpretar as sequências e acompanhar o fluxo dos sentidos pretendidos pelos artistas nas viradas de páginas. Para tal, as crianças pequenas precisavam da mediação de um adulto.
No presente estudo, busquei compreender as estratégias de interpretação que crianças pequenas empregam para a leitura de imagens em sequência narrativa, assim como constroem expectativas de continuidade da história.
Assim, busquei abranger a discussão acerca das particularidades do processo de criação e leitura das narrativas visuais propondo a interlocução dos artistas com as crianças. Como as crianças compreendem a continuidade da história? Como elas preenchem as lacunas na virada da página? As crianças entendem a repetição dos personagens como representação de ações? Como o processo de criação se desenvolverá diante de uma incompreensão por parte das crianças? Quais ideias de continuidade as crianças darão para a narrativa proposta? Essas eram algumas das questões antes do início da pesquisa de campo.
As crianças que participaram da troca com os artistas frequentavam a Creche/Pré-Escola Central da Universidade de São Paulo¹, instituição na qual atuava como professora de educação infantil.
Como professora do grupo, entendia que minha relação com as crianças seria mais intensa e o elo necessário para mediação das narrativas seria mais estreito, construído cotidianamente. Além disso, tomaria contato com as crianças em diferentes situações, ampliando meu conhecimento em relação a este agrupamento.
Dois artistas têm um papel de destaque nesse estudo: Ciça Fittipaldi e Laurent Cardon. Ambos aceitaram participar de uma criação em que as opiniões e sugestões de leituras de crianças deveriam ser consultadas ao longo de seus processos de criação da narrativa visual.
Na construção dos dados que tiveram por foco a relação entre pessoas e a prática artística acabaram surgindo situações não planejadas. Por outro lado, o aprendizado diante dos dados que se constituíram no processo, em cada palavra, em cada gesto, não consta em projeto algum.
Os dados desta pesquisa mesclam-se com o cotidiano das crianças, dos artistas e da pesquisadora. Emergiram em situações espontâneas no pátio da Central, em que as crianças pensavam que iriam encontrar o Saci que foi trazido por Ciça Fittipaldi. Os dados foram tecidos num e-mail em que a artista revela sua incerteza acerca do andamento da narrativa.
Na observação da mediação de leitura feita pelo próprio artista em uma sala na Central, pérolas foram encontradas, por vezes, nas falas sobrepostas das crianças que se manifestavam na ânsia de falarem todas ao mesmo tempo; apenas na retomada da gravação puderam ser escutadas, na rememoração do momento vivido coletivamente, e na análise descobrimos uma proposição significativa ofuscada pelos discursos mais enfáticos.
Nesta pesquisa utilizamos abordagens qualitativas e os dados foram construídos a partir de registros videogravados e gráficos. Interessava-nos principalmente coletar os dados em dois eixos de pesquisa: nas leituras com as crianças e nas entrevistas com artistas que produzem livros.
O enfoque era dado nos dizeres dos sujeitos participantes, crianças e artistas, buscando evidenciar o que eles consideravam relevante na criação e na leitura.
Durante a pesquisa, fui contemplada com a bolsa do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PSDE-Capes) e pude aprofundar o estudo teórico junto à Université Paris Ouest Nanterre La Défénse (Paris X), sob supervisão da Profa. Dra. Idelette Muzart-Fonseca dos Santos.
Este estágio alargou a compreensão do livro de imagem, da criação artística e da mediação de leitura. Ao mesmo tempo, tive oportunidade de coletar dados com crianças franco-brasileiras e crianças de diferentes origens em atividades de leitura de livros de imagem, o que ampliou e enriqueceu a discussão.
De modo geral, este livro busca discutir o livro de imagem no que tange sua natureza, criação e fruição.
Assim, no primeiro capítulo, “Livro de Imagem: origens e definições”, aprofundamos o estudo histórico para compreender as heranças gráficas que possibilitaram o desenvolvimento desse tipo de livro. Buscamos também trazer diferentes vozes sobre esse gênero, além da compreensão contemporânea desse objeto.
Já o segundo capítulo, “Leitura de imagem e mediação”, parte da perspectiva sócio-histórica na tentativa de discutir o que se pensa sobre leitura de imagem e mediação. A tônica se estabelece a partir da leitura de imagem, suas diferentes concepções e relatos de experiências concretas sobre esta prática, dirigindo o foco para a mediação adulto-criança e a relação da criança com o livro. Buscamos, sobretudo, discutir as relações de significação e afetos entre pessoas e livros.
O terceiro capítulo, “Imagem e processo de criação”, foi reservado para a discussão acerca das especificidades da criação artística de narrativas visuais.
No quarto capítulo, “Interação artistas-crianças”, são apresentadas e discutidas as experiências das duas narrativas visuais de Laurent Cardon e Ciça Fittipaldi produzidas em interlocução com um grupo de crianças.
No último capítulo, “Imagem: linguagem universal?”, analisamos leituras das duas narrativas visuais realizadas com crianças francesas, buscando discutir a amplitude da universalidade da imagem.
A imagem de epígrafe, ganhei de Isabela, que a retirou do bolso, desdobrou e me deu. Quando perguntei em que consistiam essas linhas coloridas, a resposta foi:
“— É um poema só por imagens, você não está vendo?”
E saiu correndo.
Enquanto adultos, queremos sempre ensinar as crianças. Quando nos permitimos, vemos que podemos aprender muito com elas.
Hanna Talita Araujo












